OIKOS PHARAON

Brasília Palace Hotel

Paisagem, Memória e Permanência

“Um jardim faz-se de luz e sons; as plantas são coadjuvantes.”
— Roberto Burle Marx

Erguido em 1957, antes mesmo da inauguração oficial da Capital, o Brasília Palace Hotel constitui um dos mais importantes marcos do Modernismo brasileiro. Idealizado por Juscelino Kubitschek, projetado por Oscar Niemeyer e integrado às artes de Athos Bulcão, o hotel antecede Brasília e consolida-se como síntese inaugural de sua vocação simbólica, urbana e paisagística.

Implantado em um terreno de aproximadamente 80.000 m², às margens do Lago Paranoá, o conjunto arquitetônico estabelece diálogo direto com o horizonte, a escala do território e a ideia de liberdade que fundamentou o projeto da nova capital. Nesse contexto, o paisagismo não se apresenta como ornamento, mas como estrutura narrativa: espaço de permanência, percurso sensorial e elo entre arquitetura, natureza e memória coletiva.

A proposta paisagística inspira-se em dois momentos fundamentais da obra de Roberto Burle Marx.
Nos jardins externos, predominam formas orgânicas, curvas amplas e vazios generosos, que evocam movimento, fluidez e continuidade visual com o Cerrado. No telhado verde adjacente a edificação principal, surgem composições ortogonais e rigor geométrico, reinterpretados como espaço de repouso, contemplação e reencontro silencioso com a paisagem lacustre.

O programa de necessidades foi reconstruído à luz das demandas culturais da década de 1950, período em que Brasília carecia de espaços públicos de convivência. Um restaurante à beira do lago emerge como gesto arquitetônico e metáfora: lajes em balanço sugerem o voo de um pássaro, símbolo da liberdade que moldou a cidade. Um cinema ao ar livre, de inspiração Art Déco em seu piso, resgata o espírito pioneiro do período. Salão de jogos envidraçado, quadras esportivas, pista de cooper e um parquinho generoso — envolto por vegetação frutífera nativa — reforçam o caráter social e democrático do conjunto.

Os percursos são marcados por pergolados floridos, bancos modernistas em concreto curvo — tributo direto à linguagem de Niemeyer — e pausas cuidadosamente posicionadas para contemplação. No centro da experiência, a biopiscina integrada a sistema de Wetland estabelece um ecossistema vivo: a água é purificada de forma natural, sem aditivos químicos, recriando a ambiência de rios e cachoeiras do Planalto Central. Rochas, cascatas e espelhos d’água introduzem som, frescor e movimento contínuo.

A materialidade reafirma o espírito modernista: pedra portuguesa em preto, branco e vermelho; seixos que ampliam o campo visual; areia clara evocando margens naturais; e pisograma permeável, assegurando responsabilidade ambiental. A vegetação privilegia espécies nativas, aromáticas e frutíferas do Cerrado, compondo um jardim sensorial que ativa visão, olfato, tato, audição e paladar.

Assim, o paisagismo do Brasília Palace Hotel não apenas preserva um patrimônio modernista: ele o expande. Converte-se em experiência, em percurso simbólico e em instrumento de reconexão entre cidade, natureza e tempo.

Para a PARADISVS TOWN, este projeto representa a essência do paisagismo como linguagem cultural — onde o vazio é liberdade, o horizonte é permanência e a paisagem, memória viva.